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Capítulo 2: Primeiro Passo

Música do capítulo: aqui

Primeiro Passo

Nasci em doze de janeiro de 1951.

Minha vida não foi interessante sob praticamente nenhum aspecto. Quando criança, tive dezenas de sonhos sobre o futuro que nunca chegaram nem perto de se realizar. Passei pela adolescência com displicência e acabei por me tornar professor de História, sem muito entusiasmo. Ao longo de meus anos de mortal, passei pelas dores que todos passam de uma forma ou de outra. Portanto, o único diferencial, se é que pode ser chamado assim, na minha existência, foi a noite de trinta de junho de 1978, quando eu tinha 27 anos.

Eu caminhava pelas habituais ruas que levavam à minha casa, escuras e desertas, pouco antes da meia-noite. Dar aula no período noturno nunca foi muito agradável, especialmente depois que eu tive de vender meu carro para dar conta das minhas despesas e dos remédios que mandava para meu pai, e, com isso, andar a pé. Havia sido assaltado apenas algumas semanas antes daquele dia, até. Eu esperava que, agora, minha aparente confiança unida à meu 1m72cm prevenisse um incidente como aquele de ocorrer novamente.

Lembrar disso é reconfortante… pelo menos sobre algo eu estava certo naquela noite. Nunca mais teria de me preocupar com assaltos de novo.

Quando eu estava na metade do caminho, fui surpreendido por um homem de aparência idosa vindo em minha direção. Devia ter mais de sessenta anos, apesar de parecer muito saudável para a idade.

— Você é Robert, certo? — ele perguntou, parando à minha frente como se fosse a coisa mais normal a se fazer.

— Ahn… sim, por quê?

Ele se aproximou um pouco mais, mas não parecia ameaçador.

— Você dá aulas de História, certo? Acredito que seja o professor do meu neto.

— Algum problema?

Ele estreitou um pouco os olhos, como se me analisasse, e não respondeu. Eu olhei em volta, notando o silêncio completo da rua, e dei um passo para trás.

— Desculpe, senhor, mas eu tenho que ir pra minha casa. O senhor também deveria, as ruas são perigosas nesse horário.

Ele deu um sorriso quase imperceptível e me olhou de uma forma um tanto… paternal.

— A noite é uma criança, Robert. Você ainda aprenderá.

Eu o encarei por um segundo, começando a me convencer de que ele tinha algum problema e de que eu deveria sair dali. Rápido.

Antes que eu pudesse pôr em prática meus pensamentos, ele falou novamente.

— Soube que você parece triste nas aulas. Mora sozinho, não?

Minha expressão surpresa deve ter respondido a pergunta.

— Aonde o senhor quer chegar?

— Desculpe. É só que meu neto se sente mal por você, e como eu estudei psicologia, pensei em falar contigo.

— Ah – exclamei, sem pensar em nada melhor por um tempo. — Obrigado, eu acho… mas eu estou bem. Quer dizer, bem o bastante. Acho que a crise de meia-idade chegou mais cedo pra mim.

Ambos demos uma risada sem graça. Pelo amor de Deus, ele queria conversar sobre meus problemas pessoais ali? Talvez ele devesse ter estudado psiquiatria, assim quem sabe reconheceria a própria loucura.

— De qualquer jeito, eu tenho mesmo que ir, senhor…

— Heiden – ele falou, estendendo a mão para me cumprimentar. — Alec Heiden.

— Até algum dia, então, Alec.

— Ou noite.

Ele deu um sorriso um tanto misterioso. Tentei parecer o mais simpático possível ao me desviar e continuar meu caminho.

Acabei mergulhando em pensamentos depois do que Alec me falou. Eu estava realmente deprimido, mas não sabia que isso era visível. Percebi que não perguntara quem era o neto que tanto falou de mim, mas talvez fosse melhor não saber; eu sempre tentei não me envolver muito com alunos, para nenhuma relação atrapalhar minhas avaliações. Se bem que o garoto provavelmente só falou sobre mim casualmente, curioso sobre o que poderia estar deixando seu professor para baixo. Quase ninguém sabia que minha mãe havia acabado de morrer e que eu me preocupava cada vez mais com meu pai, doente e agora sozinho. Isso porque meu contato com quem eu trabalhava geralmente resultava em intrigas e discussões.

Mas nada disso era tão terrível. Eu não vivia com minha mãe há anos, e a falta de convivência sempre minimiza a dor de uma perda. Assim que meu salário aumentasse um pouco, eu pagaria um lugar para meu pai ser bem tratado, e os problemas com os outros professores da escola, bem, eu não me importava tanto assim. Eram incômodos, mas também era revigorante mandar todos para o inferno de vez em quando.

Afogado nesses pensamentos, eu me esqueci completamente de que deixei o velho atrás de mim. Não que ter prestado atenção fosse fazer alguma diferença, é claro.

Senti as mãos de Alec me segurando pelos ombros e me puxando para ele; por alguns momentos, não consegui acreditar que fosse mesmo ele. Aquelas mãos eram muito fortes para pertencerem à um velho. Eu devia estar sendo atacado por outra pessoa.

Antes que pudesse gritar, ele tapou minha boca e, sem nenhuma demora, cravou os dentes em meu pescoço. Senti meu sangue saindo de mim, sem acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. Era impossível, impossível… mas meu sangue continuava a ser sugado. Tentei lutar, obviamente em vão.

Ser atacado por um vampiro é terrivelmente assustador, à princípio. Você pode sentir sua vida se esvaecendo a cada gota perdida, e seu corpo reconhece isso. Você sente o pavor real da morte, seu instinto de sobrevivência grita em sua cabeça que você tem que sair dali, mas você não consegue. Então, como se de repente você percebesse que é tudo um sonho, seu corpo relaxa. O sangue já é pouco para te dar a energia necessária para fugir, e uma leveza deliciosa percorre sua espinha.

Minha mente começou a ficar delirante, e a proximidade com a morte já estava me parecendo atraente. Eu iria ver minha mãe, não iria? O que há de ruim nisso? E eu estava com tanto sono, porque não poderia simplesmente fechar os olhos?

Alec subitamente me soltou. Cambaleei e caí no chão; o baque me trouxe um pouco de coerência e claridade e eu percebi o que estava acontecendo. Vi o gentil senhor, tão preocupado com meus problemas, lamber o sangue que sobrara em seus lábios.

Lutando para focar minha visão turva nele, falei lentamente:

— O que você é?

Ele riu, como se não acreditasse que eu havia feito uma pergunta tão idiota. E para falar a verdade, eu também não acreditava. Mas eu tinha a desculpa de estar morrendo, minha mente toda estava meio idiota.

— Adivinha – ele respondeu, divertindo-se.

Eu senti a inconsciência chegando, e devo ter dado pistas disso. Alec se ajoelhou ao meu lado, e eu tentei me afastar, mas só mexer a cabeça já me deixava muito tonto. Porém, quando percebi que ele cortava o pulso com a unha, uma descarga de adrenalina me invadiu. Ele me forçou a beber seu sangue, e eu não pude e nem quis impedi-lo. Alguma coisa me dizia que era assim que eu continuaria vivo. E o ser humano, quando moribundo, coitado, dá prioridade à vida a qualquer custo. Se somente sua mente estivesse límpida o bastante para perceber como isso é estúpido.

Mas isso não acontece. Então eu só engoli o sangue e desmaiei.

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  1. Nossa,sem palavras para descrever o que cabei de ler.A ansiedade por mais,me bateu.
    Parabéns mais uma vez pela sua forma de descrever a estoria.Agora vou correndo para os outros capitulos.

    beijokas Aana Zuky

    sanguecomamor.blogspot.com.br

    Responder

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